Depressão, estresse, hipertensão, insônia, diabetes, fobia e ansiedade fazem parte do quadro das doenças modernas que ajudam para aumentar as vendas de remédios. Quando se fala em depressão, por exemplo, calcula-se que em algum momento da vida cerca de 15% a 20% da população mundial sofrerá desse mal. Seja no ambiente de trabalho ou nas relações pessoais, não é raro conhecer alguém que já foi apanhado por alguma dessas enfermidades.
Em 2008, uma pesquisa divulgada pelo Ministério da Saúde afirma que as doenças modernas foram as principais responsáveis pelas mortes no país. Com origem na mente e no descontrole, essas doenças prejudicam a produção de substâncias químicas que protegem nosso organismo. As psicólogas Aparecida de Fátima Souza e Gisele Torres avaliam que os pacientes apresentam sua parcela de contribuição para a evolução dos sintomas. “Estas enfermidades apresentam-se como um mecanismo de defesa. O indivíduo transfere toda a atenção para a doença e evita lidar com o problema”, explica Aparecida. “É mais fácil tomar um remédio do que aceitar que existe algo errado. O remédio isenta o paciente da culpa e promove um falso conforto. É o imediatismo da ação química. Quando não se trata a causa, os sintomas serão apenas mascarados”, pondera Gisele.
Há quatro anos a estudante de química Aline Carvalho, 23, passou por um tratamento psicológico para cuidar de uma crise depressiva. “Não saía de casa para nada, só para as aulas. Quando tinha que comparecer a um compromisso, evitava comer e tomava remédio para inibir o vômito, pois achava que poderia passar mal em qualquer lugar. Fazia cursinho pré-vestibular e estava muito frágil”, conta Aline. Durante um ano, a estudante procurou vários médicos e tomou muitas medicações. “Demorei para descobrir que o problema estava comigo e que precisava resolvê-lo. Depois de dois anos de terapia, consigo trabalhar meus medos e hoje tenho uma vida mais tranquila”.
O médico Agenor Barbosa Lawal, explica que as doenças modernas podem ser incentivadas pelo excesso de informações encontradas, principalmente, na internet. “A rede pode ser considerada uma ‘faca de dois gumes’: ao mesmo tempo em que esclarece e aponta os caminhos da solução, ela pode desinformar, favorecendo a sintomatologia”. Além da internet, Agenor afirma que a TV, os jornais e as revistas que oferecem um montante de explicações muitas vezes podem ser contraditórios.
Para a psicóloga Aparecida Souza, as doenças contemporâneas podem ser acionadas em função da correria do dia-a-dia, da ausência de uma boa alimentação ou devido à competitiva vida profissional. “O mundo moderno não permite a tristeza, a angústia e o mal-estar. A pessoa não pode apresentar a sua essência. Deve estar sempre bem, mas isso não é do humano e sim do mundo contemporâneo”. Existem certos tratamentos em que é necessário um acompanhamento químico. “Dependendo da estrutura do paciente, sabemos se é necessário ou não indicá-lo ao médico para que este receite um medicamento. Assim, o remédio é aliado ao tratamento”, argumenta Aparecida.
Segundo pesquisas do Sistema Único de Saúde, 70% da despesa do SUS são direcionados às doenças que poderiam ser tratadas com a mudança de comportamento. A dona de casa Júlia Alves, 48, afirma que passou por uma ‘tempestade’ durante três anos. Após ficar desempregada, salienta que vários problemas físicos apareceram. “Fiquei hipertensa e descobri que era diabética”. Ela começou um tratamento alopata e, após sete meses, aliou a medicação às sessões de terapia semanais. “Mesmo sabendo que estava melhorando com auxílio da psicologia e que o meu comportamento e minha alimentação eram a chave para a cura, não consegui abandonar os remédios”, conta a dona de casa.
Hoje, porém, Júlia diz que já sabe identificar os sintomas. “Com o avanço da terapia me tornei mais segura. Já consigo reconhecer quando estou dramatizando e não sinto os males que penso sentir”, conclui a dona de casa.
(Daniela Canin)
Produção laboratorial em Jornalismo Hipermídia, Faculdade de Comunicação Social (UFJF). Matérias e reportagens locais, além de reflexões sobre os fazeres jornalísticos em sua relação com as tecnologias. Coordenação: Profa. Ms. Luciene Tófoli e Prof. Dr. Bruno Fuser. (De 2008 a 2009, Profa. Ms. Diana Paula de Souza.)
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