Automedicação: do hábito comum aos graves perigos para a saúde

Usar antibiótico ao primeiro sinal de dor de garganta, associar remédios ao anticoncepcional, tomar analgésicos indiscriminadamente, utilizar antiinflamatórios junto com descongestionantes nasais, ou seja, a famosa automedicação leva cerca de 20 mil pessoas a morte por ano no Brasil, de acordo com dados da Associação Brasileira das Indústrias Farmacêuticas (Abifarma). Intoxicações, alergias e hipersensibilidade são os problemas mais comuns de pessoas que abusam dessa prática.

Sirlei da Rocha ingere cerca de 20 comprimidos de analgésico por mês

Sirlei da Rocha ingere cerca de 20 comprimidos analgésicos por mês

Sirlei da Rocha, empregada doméstica, usa cerca de 20 comprimidos por mês de um medicamento para tratar dores de cabeça. “É uma caixa toda vez que recebo o salário”. Questionada se o tratamento é controlado por algum médico ela questiona: “Sempre tive enxaquecas muito fortes. Já fui a vários médicos, faço tratamento para controle dos hormônios, mas nada some com as dores de cabeça. Passar dor é que não vou.” O remédio a base de dipirona sódica ganhou, inclusive, apelido, durante a divulgação nacional do medicamento. As inserções da propaganda foram feitas com intensidade nos horários mais nobres dos veículos de comunicação do país e ganhou também adeptos nas principais redes sociais do Brasil. Em sites de relacionamento, existem comunidades com mais de 10.000 participantes em homenagem ao referido medicamento.

A ANVISA, órgão que controla a comercialização, produção e publicidade dos medicamentos no Brasil têm trabalhado intensamente no controle das propagandas de medicamentos. O técnico da vigilância sanitária de Juiz de Fora Adilson Batista explica porque a publicidade de remédios é o principal combustível para a automedicação: “Em todas as peças de divulgação a indústria não se preocupa em colocar a figura do médico ou farmacêutico auxiliando ou indicando o medicamento. É sempre a vizinha, o colega do futebol de final de semana, a atriz da novela das oito. São fatores que levam o consumidor a gravar inconscientemente que o remédio não precisa de orientação de um profissional de saúde.”

A maioria dos remédios que precisa de orientação médica é vendida somente com prescrição, porém medicamentos inofensivos podem causar reação se forem combinados erroneamente. “A dipirona sódica é um exemplo clássico de medicamento simples que pacientes tomam sem se importar com dosagem ou interação medicamentosa”, diz o gastroenterologista Tarcísio Costa. “Muitas vezes o paciente não espera o tempo para que o medicamento possa fazer o efeito e acaba tomando dois, três ou até quatro comprimidos em um curto intervalo de tempo. O resultado pode levar à gastrite medicamentosa, podendo em longo prazo levar à formação de úlceras no estômago.”

Segundo a farmacêutica Juliana de Oliveira, existem grandes riscos na administração conjunta de medicamentos e que são pouco divulgados. “A paciente que faz uso de anticoncepcional, por exemplo, e toma algum antibiótico, terá a inibição do efeito do primeiro medicamento”. Mas a profissional de saúde alerta para perigos ainda maiores: “O uso concomitante de antiinflamatórios e analgésicos à base de paracetamol, ibuprofeno e ácido acetilsalicílico pode causar além de hemorragias gastrintestinais, a nefrite (inflamação nos rins) analgésica, capaz de levar em meses à insuficiência renal, por isso a importância do acompanhamento médico e do nosso trabalho de atenção farmacêutica”.

A farmacêutica Juliana de Oliveira esclarece os perigos da automedicação. (Video)

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(Larissa Schuery)

Produção laboratorial em Jornalismo Hipermídia, Faculdade de Comunicação Social (UFJF). Matérias e reportagens locais, além de reflexões sobre os fazeres jornalísticos em sua relação com as tecnologias. Coordenação: Profa. Ms. Luciene Tófoli e Prof. Dr. Bruno Fuser. (De 2008 a 2009, Profa. Ms. Diana Paula de Souza.)

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